Pular para o conteúdo principal

A quilométrica fila de espera dos benefícios previdenciários e assistenciais



Com o pomposo nome de Programa de Gestão do Atendimento Presencial (PGAP), o INSS intenta, sem sucesso, pôr fim às  filas de espera dos benefícios. Tudo pode não passar de outra manobra diversionista.

Consoante os dados oficiais, há algo como 1,8 milhões de segurados que esperam o deferimento dos benefícios básicos - aposentadoria, pensão por morte e auxílio por incapacidade (o antigo auxílio-doença). E o que se assinala como mais grave, por atingir diretamente os mais pobres, são mais de 600.000 pessoas idosas ou com deficiência que aguardam o resultado do pedido de Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Notem bem! Não foi erro de digitação. Quase dois milhões e meio de pessoas estão sem resposta ao pleito de prestações de natureza alimentar!

Talvez por ser desconfiado,  sempre pensei que isso é algo propositado. Cada benefício que deixa de ser pago é parte integrante de certo jogo protelatório que faz sobrar mais e mais dinheiro em caixa. E como sempre brandem o surrado tema do déficit da previdência social, os gestores se sentem tranquilos. Parecem acreditar que denegando, pela omissão, direitos subjetivos, deixam de agravar a dramática situação financeira do sistema.

É extremamente estranho que nunca ninguém tenha pensado em chamar à responsabilidade aqueles que dirigem a instituição. Haverá, decerto, desculpas despidas de nenhum valor, mas ninguém terá como contornar o princípio constitucional da eficiência dos serviços públicos.


Intentemos alguma explicação.

O tema não é novo. Certa feita, há quase vinte anos,  uma emissora de televisão me convocou para, um pouco antes das seis da manhã de um dia de semana qualquer, comparecer às portas da agência da previdência social num bairro da zona oeste de São Paulo. É que lá, como em quase todas as partes, a distribuição de senhas se tornara um rentável serviço. Alguém que foi entrevistado nos contou que chegava às oito da noite do dia anterior, dormia no local, ao relento, e de manhã obtinha a senha que repassava a alguém por certa quantia.

A primeira explicação, que vem desde então, é o notório sucateamento da máquina administrativa,  agravada com o desligamento por aposentadoria ou morte dos servidores. Ademais, a estrutura física, e mesmo os equipamentos, sempre e sempre se mostram aquém dos avanços tecnológicos que bem poderiam resolver esse problema de pessoal  mediante procedimentos automatizados de concessão das prestações.

Convém lembrar que quem respondia pelas despesas administrativas e da máquina estrutural era a União. O dinheiro da previdência social não deveria pagar essa conta. Mas, hoje em dia, até esse custeio é rateado entre todos os contribuintes.

Imagine, por instantes, a dimensão espacial dessa monumental fila, considerada a distância regulamentar de um metro entre uma pessoa e outra! Será que, se enfileirados em dado momento e, como na caminhada do povo hebreu rumo à terra prometida, fossem recebidos pelo Todo Poderoso, o que este diria ao Moisés de plantão? “Eu ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo.” (Ex. III, 7).

Seja o porta-voz desses que não têm voz. E reclame por eles ao Moisés de plantão.



Wagner Balera é professor titular de Direito Previdenciário e de Direitos Humanos na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), livre-docente em Direitos Humanos, doutor em Direito das Relações Sociais, autor de mais de 30 livros na área de Direito Previdenciário e de mais de 20 livros da área de Direitos Humanos e sócio fundador e titular do escritório Balera, Berbel & Mitne Advogados.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por que os tubarões atacam seres humanos?

Tubarões são, talvez, as criaturas que mais aterrorizam  as pessoas em todo o mundo. Sua temível aparência, tamanho grande e seu ambiente hostil se combinam para fazê-los parecer como os protagonistas de um pesadelo. A violência súbita de um ataque de tubarão é realmente uma experiência aterrorizante para a vítima.  Mas os tubarões são, de fato, monstros assustadores que têm preferência por carne humana? Ainda que os ataques de tubarão possam parecer cruéis e brutais, é importante lembrar que eles não são criaturas do mal que caçam humanos constantemente. Eles são animais que obedecem seus instintos, como todos os outros. Como predadores no topo da cadeira alimentar do oceano, os tubarões são projetados para caçar e comer grandes quantidades de carne. A dieta de um tubarão consiste em outras criaturas do mar, principalmente peixes, tartarugas marinhas, baleias, leões-marinhos e focas.  Os seres humanos não estão no cardápio dos tubarões.  De fato...

Google maps fotografa pontos luminosos na Juréia

   Verdes, azuis e amarelas. Estas são as cores das luzes estranhas fotografadas pelo satélite da  Google maps em cima do céu da Juréia. Estão em muitos lugares.        Está duvidando? Estas aparições estão lá, acessíveis em todos os computadores do mundo, disponíveis no Google maps.   Basta acessar,ver e crer. Um único ponto verde na praia do Juquiázinho      Para você que vai pegar o computador e dar uma checadinha, o Jornal Bem- te-vi vai te ajudar a identificar os locais.        As luzes estão localizadas em pontos estratégicos, pois uma está bem na restinga do Guaraú, enquanto outra está localizada no trio de praias fechadas da Juréia:  Juquiá-Paranapoa- Praia Brava.        É possível vê-las principalmente ao longo da Estrada que corta  a Serra dos Itatins e também na estrada que vai para o Barra do Una. Três pontos luminosos na cor azul formando um triân...

Rio Preto: o “coração” de Peruíbe

Rio Preto visto do alto do Morro Itatins O rio Preto é mais do que um comércio de peixes ou o final da praia central de Peruíbe. Grande parte de sua importância é desconhecida pelos moradores ou adormece na memória dos mais antigos.É por conta disso que resolvemos falar deste importante ponto da cidade. Peruíbe, na língua indígena, significa Rio do Tubarão. Como o rio Preto é o maior rio da cidade, foi de lá que saiu o nome de Peruíbe,que hoje é conhecida como “terra da eterna juventude” . Pescadores vendem seus peixes no Mercado de Peixe Quem for visitar o rio, poderá encontrar no canteiro central, no final da Avenida Beira Mar, diversas aves marinhas, como garças, socós e biguás.Comercialmente falando,diversas pessoas tiram o sustento de suas famílias deste rio: são os pescadores . Quando eles atracam na pequena marina existente no local, os frutos do mar vão direto para o mercado de peixes para ser comercializado, geralmente por suas esposas ou parentes. Este processo...

Peruíbe promove mutirão de limpeza das praias em celebração ao Dia Internacional da Mãe Terra

Em celebração ao Dia Internacional da Mãe Terra, comemorado hoje, 22 de abril, a Prefeitura de Peruíbe, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Agricultura, realiza no próximo dia 25 de abril, das 8h às 11h, um grande Mutirão de Limpeza de Praia, reunindo poder público, parceiros e comunidade em uma ação de conscientização e preservação ambiental. A iniciativa tem como objetivo mobilizar voluntários para a limpeza de áreas costeiras do município, reforçando a importância da conservação dos ecossistemas marinhos, da proteção da fauna e do descarte correto de resíduos sólidos. A ação acontecerá em três pontos estratégicos: Praia do Centro, Barra do Rio Preto e trilha ao lado do Portinho de Pesca, com concentração no novo espaço de eventos do Parque Turístico de Peruíbe, na Avenida Mário Covas Júnior, próximo ao Portinho de Pesca. A recepção dos participantes começa às 7h. Além do mutirão, a programação contará com uma roda de conversa sobre educação e conscientização ambienta...

Portal “Raízes Indígenas” leva cultura dos povos originários de São Paulo para o ambiente digital

Um novo portal dedicado à valorização dos povos originários acaba de ser lançado na internet, ampliando o acesso à cultura indígena por meio de conteúdos educativos e informativos. O site Raízes Indígenas é um projeto contemplado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC), iniciativa do Governo do Estado de São Paulo voltada ao fomento da produção cultural. A plataforma surge como um espaço de difusão da riqueza histórica e cultural de diferentes etnias indígenas presentes no estado paulista, como Guarani, Terena, Krenak, Kaingang e Tupi. O conteúdo destaca tradições, modos de vida, saberes ancestrais e a relação desses povos com o território, contribuindo para ampliar o conhecimento e combater estereótipos ainda presentes na sociedade. Com caráter educativo e interativo, o site foi estruturado em diferentes seções que facilitam a navegação e aprofundam a experiência do usuário. Na aba Início , o visitante encontra uma visão geral do projeto e seus objetivos. Já em Etnias , é possível co...