Pular para o conteúdo principal

Rio Grande do Sul: barragens são antigas e precisam ser reforçadas, diz engenheiro



O Rio Grande do Sul enfrenta o pior desastre climático de sua história. As fortes chuvas que atingem o estado já vitimaram 83 pessoas e há ao menos 111 desaparecidos — números que seguem aumentando. O rio Guaíba, que margeia Porto Alegre, subiu ao maior nível já registrado em 83 anos e alagou as ruas da cidade. O desastre escancara: o Estado não tem feito frente às mudanças climáticas nem acompanhado a evolução da gravidade dos eventos extremos.


O sistema de barreiras de prevenção a enchentes da capital gaúcha foi construído na década de 1960 e já não suporta o nível de chuva que atingiu a cidade. A barragem da usina hidrelétrica 14 de Julho se rompeu no dia 2 de maio e a comporta do rio Guaíba colapsou no dia seguinte. Outras quatro barragens, localizadas nas cidades de Bento Gonçalves, Canela, Cotiporã e São Martinho da Serra, estão sob risco de ruptura iminente, de acordo com a Defesa Civil do estado.


Para Luciano Machado, engenheiro civil e geotécnico vinculado à Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica, essas construções precisam ser modernizadas o quanto antes. “É preciso refazer as barragens e estudar do ponto de vista hidrológico qual é o tipo de projeto mais adequado para recompor essas estruturas. Não tem outra opção, tem que modernizar e refazer”, afirma em entrevista à Agência Pública.


Parte da explicação para os temporais violentos está relacionada ao El Niño, fenômeno climático natural que promove mais chuvas no Sul do país. Intensificado pelas mudanças climáticas, ele deve dar lugar nos próximos meses à La Niña, quando é esperado um período prolongado de seca na região.


Na visão de Machado, esse momento futuro deve ser aproveitado para a construção de obras que mitiguem os impactos dos temporais, já que o clima seco é mais propício para a fazer tais empreendimentos.


“Se fala muito em cidades resilientes [aos eventos extremos], mas não pensamos muito no que é essa resiliência. Eu acredito que toda a água que está sobre o Rio Grande do Sul agora pode fazer muita falta no futuro, mas hoje a primeira coisa que queremos é que ela vá embora, para que as pessoas possam recuperar suas vidas”, diz Machado.


Confira os destaques da entrevista:


Este é o quarto desastre climático que o Rio Grande do Sul enfrenta em menos de um ano. O que precisa ser feito para que tragédias como a que estamos testemunhando não se repitam?


A última La Niña ficou instalada por três anos [de 2020 a 2023] e provocou secas históricas no Sul do Brasil, na Argentina e no Uruguai. E não foi feito nenhum tipo de obra durante aquele período para amenizar os problemas quando as chuvas viessem. Era sabido que elas viriam, assim como sabemos que elas vão embora e a seca pode voltar no segundo semestre com a La Niña.


A resiliência não foi construída quando deveria. Está comprovado que ela não existe, vemos pontes desabando, barragens rompendo e muitos deslizamentos. É um trabalho de médio e longo prazo que precisa ser feito. Já sabemos todos os pontos de alagamentos e os locais de riscos de encostas, está tudo fotografado e mapeado. Então, será preciso trabalhar nesses lugares durante o período de estiagem, considerando a volta da La Niña e que provavelmente não teremos chuvas no Sul enquanto esse fenômeno estiver atuando.


Se não tratarmos desses problemas antes do El Niño retornar, teremos novos desastres na região, com mais pessoas morrendo e alagamentos. São as consequências de não ter sido tomada nenhuma ação estruturante durante a seca que pudesse mudar essa situação tão triste que estamos acompanhando.


Em termos concretos, quais seriam as ações mais necessárias e urgentes?


Num primeiro momento, o que se deve fazer é o rescaldo, liberar as rodovias e fazer a limpeza das cidades, transformar essa cena de guerra em algo possível de ser habitado novamente. E na sequência, entrar com obras estruturantes que reduzam os impactos de chuvas como essas, em especial nos locais onde estão mapeados os maiores danos.


Depois, será preciso refazer essas barragens [contra enchentes] e estudar do ponto de vista hidrológico qual é o tipo de projeto mais adequado para recompor essas estruturas. Os pontos onde houve os rompimentos alcançaram volumes de água inusitados, quantidades que não se vê todo dia. Então não tem outra opção, tem que modernizar e refazer.


As obras de infraestrutura mais importantes são feitas em um período de médio e longo prazo, não dá para fazer grandes coisas em um pouco tempo. São obras grandes, mas quando a gente pensa que a última La Niña durou três anos, era um espaço de tempo bastante significativo, no qual teria sido possível fazer muitas ações.


E quais seriam essas medidas a longo prazo, considerando a previsão de retorno da La Niña?


É interessante observar os exemplos de outras partes do mundo, como a China, que tinha um problema muito grave com enchentes. Nos últimos 15 anos, o país asiático vem tratando dessa questão e criou o programa que eles chamam de “cidades esponjas”, com uma série de obras estruturantes. Isso envolve parques possíveis de serem alagados, pavimento permeável, drenagem.


Precisamos de várias medidas integradas para atacar o problema de forma efetiva, não há uma solução única. O importante é que as cidades consigam se recuperar rapidamente após um evento extremo, e preservando a vida das pessoas.


A China teve como meta a construção de grandes reservatórios e áreas alagáveis, com a finalidade de usar essas águas no período de seca. O Rio Grande do Sul está debaixo d’água agora, com diversas cidades alagadas, mas daqui a alguns meses há a chance de haver falta d’água nesses mesmos locais [devido à La Niña].


Cada solo tem suas características, alguns são mais permeáveis que outros, então é importante fazer projetos que tenham uma drenagem suficiente para afugentar as enchentes, considerar construir áreas de armazenamento de água e lugares de retenção, para que as águas não cheguem com tanta velocidade nos rios, como aconteceu no Guaíba. Esse rio precisa de pontos de apoio para represar a água antes de chegar nele, para escoar com menor velocidade.


Precisamos pensar em obras resilientes e inteligentes que, ao mesmo tempo, evitem as enchentes e permitam o uso do recurso natural durante a estiagem. São projetos complexos e elaborados, mas que precisam ser tratados com a urgência que os eventos extremos trazem.


O senhor enxerga movimentação dos governos para tomar ações nessa direção?


Tenho a impressão de que a mobilização só acontece no momento em que a calamidade está instalada. Do ponto de vista urbano, não vejo movimentações para atacar essa questão em nenhuma esfera de governo. Precisamos usar os problemas de hoje para pensar nas soluções do futuro, usar esse tipo de inteligência.


Se fala muito em cidades resilientes [aos eventos extremos], mas não pensamos muito no que é essa resiliência. Eu acredito que toda a água que está sobre o Rio Grande do Sul pode fazer muita falta no futuro, mas hoje a primeira coisa que queremos é que ela vá embora, para que as pessoas possam recuperar suas vidas. Cada vez mais precisamos pensar na natureza como um caminho possível de solução, se queremos ter cidades realmente resilientes.


Pelo que tenho estudado, teremos bastante tempo para recuperar as cidades no Sul [durante a estiagem da La Niña]. Será a hora de fazer obras estruturantes olhando para o que já ocorreu em outros lugares do mundo. O Brasil tem a chance de sair na frente no âmbito da adaptação mundial às mudanças climáticas, porque temos muita capacidade técnica e engenharia desenvolvida para resolver os problemas. Mas é preciso que exista interesse político em implementar essas ações.


Fonte: Agência Pública

Por Texto: Gabriel Gama | Edição: Bruno Fonseca




*Atualização às 11:57 de 06/05/2024: Atualizamos a entrevista com o número mais recente de mortos e desaparecidos.


Reportagem originalmente publicada na Agência Pública


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Por que os tubarões atacam seres humanos?

Tubarões são, talvez, as criaturas que mais aterrorizam  as pessoas em todo o mundo. Sua temível aparência, tamanho grande e seu ambiente hostil se combinam para fazê-los parecer como os protagonistas de um pesadelo. A violência súbita de um ataque de tubarão é realmente uma experiência aterrorizante para a vítima.  Mas os tubarões são, de fato, monstros assustadores que têm preferência por carne humana? Ainda que os ataques de tubarão possam parecer cruéis e brutais, é importante lembrar que eles não são criaturas do mal que caçam humanos constantemente. Eles são animais que obedecem seus instintos, como todos os outros. Como predadores no topo da cadeira alimentar do oceano, os tubarões são projetados para caçar e comer grandes quantidades de carne. A dieta de um tubarão consiste em outras criaturas do mar, principalmente peixes, tartarugas marinhas, baleias, leões-marinhos e focas.  Os seres humanos não estão no cardápio dos tubarões.  De fato...

Sefaz-SP e Polícia Civil desmantelam fraude do Pix praticada por centenas de empresas

  Auditores fiscais da Secretaria da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo (Sefaz- SP ) e policiais da Secretaria de Segurança Pública (SSP), por meio do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), da Polícia Civil, cumprem, nesta segunda-feira (11), um mandado de busca e apreensão em endereço que concentra as inscrições estaduais de aproximadamente 300 empresas. Participam dos trabalhos 11 auditores, além de 10 policiais. A operação é batizada de ‘Olho no Pix’.   As investigações foram iniciadas em fevereiro de 2024, após um servidor da Delegacia Regional Tributária da Capital (DRTC-III), no Butantã, identificar um pagamento do IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) por meio de Pix falso. Como o dinheiro não caiu nos cofres da Sefaz- SP  e, consequentemente, o imposto ficou em aberto, o cidadão procurou a delegacia tributária para esclarecer o caso.   Ao identificar a fraude, o fazendário, com a colaboração dos chefes e respon...

Verão no Clima leva shows, corridas e educação ambiental a sete cidades do Litoral Paulista em janeiro

O Projeto Verão no Clima inicia em 2026 com programação intensa no Litoral Sul, na Baixada Santista e no Litoral Norte. Os eventos gratuitos buscam promover o esporte, a conscientização ambiental e a cultura, reunindo DJs, bandas e artistas da região. As cidades que vão receber o circuito itinerante em janeiro são Peruíbe (8), Bertioga (10), Ilha Comprida (15), Praia Grande (17), Ubatuba (24), Santos (28) e Guarujá (31). Além das ações de educação ambiental e atrações culturais, alguns municípios recebem o maior circuito gratuito de corridas do verão. As inscrições são gratuitas e limitadas no site da Ticket Sports. O cuidado com o meio ambiente está no centro do projeto. Em todas as cidades do circuito, o Verão no Clima promove ações de conscientização e boas práticas de descarte correto de resíduos. A programação inclui mutirão de educação ambiental e atividades lúdicas, incentivando adultos e crianças a manter as praias limpas. No decorrer do dia, artistas assumem o palco e animam o...

Pairando pela história: Praças como monumentos

As praças contemporâneas cravadas na área central e periférica dos municípios levam nomes de datas ou pessoas importantes para a história local e até mesmo nacional e mundial. Um grande exemplo disso são as praças que ao longo do nosso país levam o nome de Melvin Jones e 15 de novembro. Melvin Jones foi o fundador do Lions Club, importante Associação de Clubes criada em 1917, cujo um dos principais objetivos é “Servir a comunidade e atender as necessidades humanas, fomentar a paz e promover a compreensão mundial.” O principal lema que Melvin Jones defendia era: "Você não pode ir muito longe enquanto não começar a fazer algo pelo próximo". Em Peruíbe, a Praça Mevin Jones está localizada na Avenida Mário Covas Júnior sem número centro, onde hoje esta Localizado o CIT (Centro de Informações Turísticas). A maioria dos municípios que possuí o Lions Club possui uma praça dedicada ao seu fundado. As praças 15 de novembro na grande maioria são referências centrais em vários mun...

Hospital de Peruíbe ficará fechado até o fim do ano e cidade não terá mais maternidade

Prometido como um marco histórico na saúde pública de Peruíbe, o novo Hospital Municipal, entregue fisicamente à população no fim de 2024, segue fechado. O prédio, moderno e com capacidade para 68 leitos, deveria estar em funcionamento desde dezembro de 2024. No entanto, em maio de 2025, o hospital permanece sem atender a população, sem previsão oficial de abertura. O impasse central parece estar no custeio da operação. Apesar da promessa da gestão municipal de que os recursos estariam "garantidos", líderes políticos locais já admitiram que a Prefeitura não tem condições de bancar sozinha os custos do hospital.  Em janeiro de 2025, a deputada federal Rosana Valle e representantes da Prefeitura solicitaram apoio do governo estadual para custear a operação. Em março, o prefeito Felipe Bernado anunciou em vídeo que estavam sendo discutidos recursos estaduais, mas sem nenhuma definição concreta sobre a data de abertura ou o funcionamento da unidade. Em uma sessão na Câmara Munici...